Por Marta Nogueira

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Uma série de atrasos para a entrega de plataformas da Petrobras e a perspectiva de vendas de ativos pressionaram a curva de produção de petróleo e gás natural da companhia do plano de negócios 2019-2023, anunciado nesta quarta-feira, afirmaram executivos.

Apesar de um aumento expressivo previsto para a produção de petróleo no Brasil em 2019 ante este ano, de 10 por cento, a empresa reduziu as expectativas para o período de cinco anos.

Em 2023, a produção de petróleo da empresa no Brasil deverá alcançar 2,84 milhões de barris de petróleo (bpd), segundo cálculos do Itaú BBA, com base no plano de negócios da Petrobras. Para 2018, a estatal projeta 2,1 milhões de barris/dia.

No plano anterior, a Petrobras previa alcançar 2,9 milhões de bpd em 2022.

"Se a gente olhar o impacto do desinvestimento na curva da Petrobras, de uma forma geral, eu diria que o número simplificado para te dizer é de 10 por cento", afirmou a diretora de Exploração e Produção da Petrobras, Solange Guedes, durante teleconferência sobre o plano com analistas de mercado.

A empresa prevê levantar 26,9 bilhões de dólares com a venda dos ativos que já estão à venda, incluindo campos terrestres, de águas rasas, assim como ativos de outros setores.

Ao longo do plano, entre 2019 e 2023, está prevista a entrada em operação de 13 novas plataformas. No período anterior, entre 2018 e 2022, estavam previstas 18 plataformas, sendo que quatro delas já entraram em 2018, uma ainda está prevista para este ano e duas foram postergadas.

A maior mudança no horizonte dos próximos anos ocorreu em 2021, para quando estavam previstas seis novas plataformas e agora estão apenas três.

No entanto, a gestão da petroleira considera que a visão atual reflete melhor a projeção da companhia para a entrega das unidades, após corrigir estratégias e considerar riscos, disse

"Essa visão é mais adequada ao nível de maturidade que a gente tem hoje nesses projetos", disse o diretor-executivo de Desenvolvimento da Produção e Tecnologia, Hugo Repsold.

No anúncio desta quarta-feira, a Petrobras não convidou jornalistas para coletiva, como sempre faz, e respondeu perguntas apenas de analistas de mercado em teleconferência.

As ações preferenciais da empresa avançavam 0,7 por cento às 17h37.

ANALISTAS

Mas a nova redução na curva de produção não foi bem recebida por especialistas do setor.

"Aos meus olhos, o aspecto mais interessante do novo plano é outro corte nas metas de produção. Francamente, perdi a conta de quantas vezes as metas de produção foram reduzidas nos últimos cinco anos ou mais, afirmou o analista Pavel Molchanov, da corretora Raymond James.

Walter De Vitto, analista de petróleo da Tendências, ressaltou o atraso das plataformas, mas pontuou que o plano veio "sem grandes surpresas" e em linha com a estratégia que a atual administração vem apresentando.

Questionados se o plano teria sido conversado com o próximo presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, anunciado pelo governo de transição de Jair Bolsonaro, os diretores responderam que o plano não é de uma ou duas pessoas, mas sim de toda a companhia, tendo envolvido mais de 100 pessoas, todos os setores e mais de oito meses de trabalho.

No plano, a Petrobras prevê investir 84,1 bilhões de dólares nos próximos cinco anos, um aumento de quase 10 bilhões de dólares na comparação com o plano anterior, com o setor de exploração e produção de petróleo e gás mantendo a maior parte dos aportes.

Aprovado na véspera pelo conselho de administração da empresa, o novo plano supera os investimentos de 74,5 bilhões de dólares previstos entre 2018 a 2022.

A empresa também traçou como nova meta dívida líquida sobre Ebitda ajustado abaixo de 1,5 vez em 2020.

Vitto, da Tendências, destacou que, na área de refino, a Petrobras reiterou a intenção de concluir a unidade de redução de emissões atmosféricas (SNOX) e ampliação do processamento da primeira unidade de refino da Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, além da conclusão de segunda unidade de refino da refinaria.

Além disso, incluiu no plano estudo de viabilidade em curso para a conclusão da refinaria do Comperj, no Rio de Janeiro, em parceria com a chinesa CNPC.

Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), destacou que o plano veio dentro da expectativa do mercado, com aumento razoável da produção, desinvestimentos importantes e meta ambiciona de alavancagem.

"O desafio do próximo governo é manter esse plano e acho que vai de encontro com aquilo que o governo Bolsonaro pretende fazer a partir do ano que vem", disse Pires.

Segundo ele, a gestão do ex-presidente Pedro Parente e de seu sucessor Ivan Monteiro foi focada mais no financeiro, o que para ele era correto devido à situação das contas da companhia, e que a gestão de Castello Branco será mais estratégia e, portanto, mais focada nos desinvestimentos.

(Por Marta Nogueira e Alexandra Alper; reportagem adicional de Rodrigo Viga Gaier e Paula Laier)