Os Estados Unidos querem mais baianos. Estudantes baianos nas escolas e universidades, turistas baianos viajando. Querem muito mais empresas baianas – seja exportando para lá, seja criando filiais no país. “É uma oportunidade única”, diz o cônsul geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, James Story.

Desde 2015, ele está à frente do consulado, que, além do Rio, também engloba a Bahia e o Espírito Santo. Nesse período, reforçaram projetos como os de ensino de inglês nas escolas públicas e agilizaram o processo dos vistos para quem não vive no Rio de Janeiro. “A troca de experiências, as viagens fazem a base da diplomacia. Queremos mais turistas norte-americanos no Brasil e mais brasileiros lá”, defende.

Um dos objetivos do cônsul é atrair mais empresas baianas para participar do programa SelectUSA, que acontecerá em junho, em Washington. De acordo com ele, três mil companhias estrangeiras já participaram da conferência, que oferece informações e mentoria para quem quer investir nos EUA. Os participantes vão aprender desde vantagens de taxas de importação e exportação a como contratar trabalhadores no país. No entanto, só 2% do que o Brasil investe nos EUA vêm de empresas baianas.

“Queremos abrir mais portas para empresas baianas nos EUA. Para as pessoas que querem internacionalizar seu trabalho, é imprescindível participar do Select USA”, diz ele, em português fluente. Apaixonado pelo Brasil, o cônsul passou a maior parte da carreira diplomática na América Latina – só aqui, está na terceira missão, mas já viveu na Colômbia e no México. Conhece todos os países do continente e, antes de ser diplomata, morou na Costa Rica.

Agora, Story está de partida para Caracas, na Venezuela – assume o posto em junho. Em entrevista ao CORREIO, em sua última viagem oficial a Salvador, o cônsul fez um balanço dos três anos à frente da missão e falou sobre as relações entre a Bahia e os EUA, economia e a realidade atual do Brasil.

Qual será o seu próximo destino? Vou para Caracas, Venezuela. Passei a maioria da minha carreira diplomática aqui nas Américas. Colômbia, três vezes no Brasil, México… Antes de ser diplomata, morava na Costa Rica. Conheço todos os países e fiz trabalhos regionais nas Américas. E agora terei um posto em Caracas.

É um desafio, não? É um desafio porque nós queremos ter uma relação boa com a Venezuela e nós temos que conseguir. Faz parte da diplomacia conseguir as relações. Mesmo quando a gente não está de acordo, a gente tem que trabalhar.

Pode fazer um balanço desses três anos à frente do consulado? Eu acho que focamos realmente em oportunidades de crescer nosso contato com a sociedade. E fizemos isso de muitas maneiras. O visto eletrônico que o Brasil fez vai abrir mais espaço, mas fizemos uma série de trabalhos. Mandamos pessoas para os EUA e recebemos estadunidenses aqui para fazer palestras. Temos muitos projetos de ensino de inglês. Estávamos no Acbeu num projeto que dá bolsas de estudo de inglês para estudantes de escola pública. Venho várias vezes à Bahia para palestras.

Levamos grupos de empresários do Brasil para os Estados Unidos e também recebemos. Trabalhamos nas questões econômicas e nas questões de cultura. Aliás, vai ter um grupo gospel num trio aqui no dia 2 de maio na Bahia. Vai ser legal.

Mas pensando no global, com o trabalho que fizemos nas Olimpíadas e que nos esforçamos para trabalhar nos setores de segurança pública, aprendemos muito. Tanto Estados Unidos quanto Brasil. Nós compartilhamos muitas experiências. Fiz uma parceria com escola de samba para chamar atenção dos EUA. Tudo para mostrar que Brasil e EUA têm muito mais em comum do que as pessoas acreditam.

Temos que celebrar esses pontos que temos em comum e fazer um esforço para que a gente entenda. Quando eu falo com as pessoas que me sinto em casa na Bahia, todo mundo pergunta o motivo. É simples. A minha cultura na Carolina do Sul foi afetada pela imigração forçada, com a escravidão, da África, como na Bahia. A música, a religião, a comida, a forma de falar até. Na Carolina do Sul, temos muito a ver com a Bahia.

O que desenvolvem nesses projetos?

Fazemos um trabalho contra discriminação racial de várias formas. Levamos o Eugene Cornelius no ano passado para falar sobre o que quer dizer diversidade e a importância da diversidade dentro das empresas. Ele é afro-americano e falou que o impacto econômico das empresas com o conselho as empresas que têm essa diversidade ganham mais. Muito mais. Ele estava tentando explicar isso. Fazemos esses programas não só aqui em Bahia, mas em outros estado aqui, no Rio, no Espírito Santo, em Minas Gerais, na Bahia, porque acreditamos que é importante.

Destacando um projeto que temos aqui n Bahia que é o Acces para estudantes de escola pública estudar inglês. No ano passado, quatro alunos desse programa participaram do programa Jovens Embaixadores.

Realmente queremos que essas pessoas estudem nos EUA. As universidades de lá querem mais brasileiros, pela diversidade. É um ponto de vista diferente do que a gente tem. As universidades dão muitas bolsas de estudo e vimos um leve aumento de estudantes do Rio indo para os EUA e queremos ver mais. Universidades americanas abriram escritórios aqui no Brasil e isso indica que vai levar muito mais turismo e negócios.

Da última vez, vocês fizeram uma série de visitas para desenvolver trabalhos no estado. Destacaria algum projeto? Queria destacar hoje um projeto que e chama SelectUSA porque vimos um aumento de importação e exportação da Bahia para Estados Unidos e vice-versa. Queremos abrir mais portas para empresas baianas nos EUA. No ano passado, mais de três mil empresas internacionais foram para os EUA.

Esse ano, acontece de 18 a 20 de junho e vai dar tempo (de se inscrever). O que nós queremos é o aumento do número de empresas baianas que vão para os Estados Unidos. Só temos uma empresa baiana inscrita (no SelectUSA), que é a Oxiteno. Eu acho que tem outras empresas da Bahia que poderiam oferecer seus produtos lá, aprender como entrar no mercado, porque é um mercado enorme. São US$ 18 trilhões e 325 milhões de pessoas.

Levei um grupo do Espírito Santo no ano passado para os Estados Unidos e eles encontraram muitas vantagens para os produtos capixabas nos Estados Unidos. Eu queria fazer mesma coisa com a Bahia. Eu acho que um bom começo é o SelectUSA, que deve abrir muitas portas. Vai juntar com gestores de desenvolvimento econômico de todos os estados dos EUA. Eles vão indicar quais as vantagens de taxas de importação, exportação, como poderia contratar trabalhadores lá. Para as pessoas que querem internacionalizar seu trabalho, é imprescindível o SelectUSA.

Quais os critérios para participar? Pode ser qualquer empresa que tem vontade de começar um negócio internacional – que é trabalhar com outras empresas americanas ou exportar para os EUA. É uma oportunidade e a ênfase está no investimento nos EUA, em como investir nos EUA para negócios. Qualquer empresa que vai aprender como investir nos EUA vai aprender como entrar no mercado também. Realmente é uma oportunidade única. Acontece todos os anos, mas queremos ver mais empresas baianas lá. Podemos crescer esse mercado.

Alguma novidade para mais empresas americanas na Bahia? Acho que olhando para o futuro, uma área que a gente poderia ter mais oportunidade é o gás natural. A Bahia tem muito gás. Os EUA já fizeram uma revolução de gás. A primeira exportação de gás para um país foi para o Brasil, em 2015, e desde então já foram umas oito ou nove exportações. Aqui na Bahia, você tem uma fábrica de regaseificação e estamos exportando gás líquido. Aqui existem oportunidades de explorar e trabalhar mais no setor de gás aqui dentro do estado.

O quanto os baianos que viajam hoje para os EUA movimentam a economia local? Eu vou dar uma cifra que nós utilizamos. A cada 60 vistos que concedemos no consulado geramos um emprego fixo nos EUA. Hoje vamos ter 800 pessoas que vão passar pelas portas do consulado. Isso vai gerar uns 15 trabalhos fixos nos Estados Unidos.

A troca de experiências, as viagens, fazem a base da diplomacia. Quero mais turistas norte-americanos no Brasil e mais brasileiros lá. É bem simples tirar o visto. Eu sei que todo mundo reclama que não tem consulado aqui, mas agora agilizamos para as pessoas de fora do Rio que podem ir lá e fazer tudo num dia só. Podem chegar cedo de manhã, fazer a primeira entrevista e depois vai para o consulado. Com tudo feito, podem ir embora. Não tem que passar a noite. É uma ótima oportunidade.

Eu acho importante para a economia, sobretudo nós vemos que Salvador recebia mais turistas no passado do que recebe hoje. Mas eu realmente preciso elogiar o governo do estado e a prefeitura porque a cidade realmente está ficando melhor a cada vez que venho aqui. A infraestrutura dá para receber muito mais turistas. Agora, tem que vender o peixe.

Salvador tem muito, fora a Praia do Forte, Trancoso. Passei uma semana em Abrolhos e é um tesouro. Tem gente que viaja para os EUA para o Havaí para ver baleias. Eu vi baleias aqui.

Como aumentar a atração dos americanos por Salvador? Eu acho que uma sugestão é tentar vender Salvador nas feiras, nas mídias sociais. E acho também que, além do visto eletrônico, tem os céus abertos. Passou no Congresso (o projeto de lei foi aprovado pelo Senado no mês passado) e ainda tem alguns trâmites a fazer, mas acreditamos que os céus abertos vão gerar emprego no Brasil, diminuir o preço das passagens e podem também abrir mais espaço para mais viagens.

Esse vai ser um passo enorme à frente. Com outros países, conseguimos uma queda de 40% no preço das passagens e vimos uma nova oferta. Os EUA fazem isso constantemente em outros países. Pode ver outro país como Chile, Colômbia, que já têm, e vai ver um impacto.

Sabe dizer para onde os baianos vão mais? Posso falar sobre brasileiros, todo mundo vai para o lado. Miami, Orlando, Nova York, depois Las Vegas e um pouquinho Los Angeles. Dentro do Facebook do consulado, temos um projeto que se chama Próximas Paradas e vamos mostrar outros lugares menos comuns.

É igual ao Brasil. Imagina se todo mundo que vier ao Brasil só for para o Rio, São Paulo e Foz do Iguaçu, talvez Salvador. Pense bem, tem Chapada Diamantina, Fernando de Noronha, Pantanal, Gramado no Sul, Manaus… Tem muita coisa a oferecer. É igual, os EUA têm muito mais do que as cidades enormes.

Como os EUA veem o cenário político brasileiro atual? Eu acho importante destacar que a gente acompanha o processo brasileiro como os diplomatas brasileiros que estão nos EUA acompanham o processo eleitoral lá. Sempre dizemos que as instituições brasileiras são fortes e estão fazendo seu trabalho.

Acompanhamos de fora. Eu sempre falo que tivemos boas relações com todos os partidos, todos os presidentes, todos os Congressos. É importante dizer que vamos esperar o resultado das eleições e vamos começar de novo a construir uma super pauta de trabalho. Acho que é importante que as duas enormes democracias enormes nas Américas, com centenas de milhões de pessoas, trabalhem mais juntas e aprofundem nosso comércio também. Tem muito que podemos fazer em conjunto com os dois países. Temos uma pauta agora e vamos ter uma outra pauta a partir de janeiro de 2019.

Fonte: Correio da Bahia